Pesquisa com mais de 14 mil pessoas aponta baixa realização de exames importantes para identificar alterações nos rins, especialmente entre pacientes com diabetes e hipertensão
Um estudo brasileiro publicado nesta semana alerta para uma possível dimensão ainda maior da doença renal crônica (DRC) no país. A pesquisa, realizada em colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), avaliou mais de 14 mil pessoas consideradas de maior risco para a doença e identificou uma baixa frequência na realização de exames fundamentais para o diagnóstico precoce.
A doença renal crônica é uma condição caracterizada por alterações persistentes na estrutura ou no funcionamento dos rins. O problema pode permanecer silencioso durante boa parte de sua evolução, fazendo com que muitas pessoas só descubram a alteração quando a função renal já está comprometida. Segundo o Ministério da Saúde, os rins são responsáveis por funções essenciais, como filtrar o sangue, eliminar resíduos e controlar o equilíbrio de líquidos e sais do organismo.
O alerta do novo estudo está principalmente na dificuldade de identificar a doença antes que ela avance. Os pesquisadores analisaram a realização de exames como a dosagem de creatinina no sangue e a albuminúria, teste que verifica a presença de proteína na urina e pode ajudar a identificar lesões renais. Menos de 5% dos participantes que haviam realizado o exame de creatinina também tinham a albuminúria solicitada. Mesmo após uma campanha nacional de rastreamento, esse percentual permaneceu abaixo de 7%.
O impacto desse cenário está justamente no atraso para reconhecer alterações que ainda poderiam ser acompanhadas e tratadas. O diagnóstico precoce permite controlar fatores que contribuem para a perda da função dos rins, reduzir complicações e retardar a evolução da doença. Em casos avançados, a DRC pode levar à necessidade de terapias de substituição renal, como a diálise.
“Existem exames simples que ajudam a identificar a doença renal crônica, como o exame de creatinina no sangue e o teste de proteína na urina (albuminúria). Mesmo assim, eles nem sempre são feitos com regularidade, inclusive por pessoas que estão nos principais grupos de risco.”
— Thyago Proença de Moraes, nefrologista, professor da PUCPR e um dos autores da pesquisa.
Entre os principais grupos de risco analisados estão justamente pessoas com diabetes e hipertensão, doenças que têm forte relação com o desenvolvimento e a progressão da DRC. O diabetes pode provocar danos nos vasos sanguíneos dos rins, enquanto a pressão alta pode sobrecarregar os vasos e comprometer a função renal ao longo do tempo.
Além dessas condições, o Ministério da Saúde aponta outros fatores associados ao risco de doença renal crônica, como idade avançada, obesidade, doenças cardiovasculares, histórico familiar de DRC e tabagismo. A identificação de pessoas que apresentam esses fatores é considerada importante para que o acompanhamento e a investigação sejam iniciados antes do aparecimento de complicações.
Os resultados do estudo reforçam, portanto, que o desafio da doença renal crônica no Brasil não está apenas no tratamento de quem já recebeu o diagnóstico. A dificuldade também está em encontrar quem ainda não sabe que possui uma alteração renal. Para os pesquisadores, ampliar o rastreamento e estimular a realização adequada dos exames pode contribuir para preservar a função dos rins e evitar que mais pacientes descubram a doença somente em estágios avançados.
