Metanol em bebidas: expansão de casos alerta autoridades para risco à saúde pública
Brasília — Subiu para 113 o número de casos de intoxicação por metanol vinculados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas no Brasil, conforme boletim divulgado pelo Ministério da Saúde até a tarde de sexta-feira, 3 de outubro. Destes, 11 casos foram confirmados laboratorialmente, enquanto 102 seguem em investigação.
A maioria dos registros (101 notificações) concentra-se no estado de São Paulo, que também é o único com mortes confirmadas — uma fatalidade já confirmada e outras mortes sob investigação. Outros estados com casos suspeitos incluem Pernambuco (6 notificações), Bahia (2), Distrito Federal (2), Paraná (1) e Mato Grosso do Sul (1).
Panorama de risco
Segundo o Ministério da Saúde, o cenário é considerado atípico em comparação à série histórica de ocorrências de intoxicação por metanol. Normalmente, o país registra cerca de 20 casos por ano — já agora este número foi ultrapassado em poucos dias.
Com relação aos óbitos, são 12 mortes notificadas, das quais uma foi confirmada em São Paulo. As demais estão em investigação: oito em São Paulo, uma em Pernambuco, uma na Bahia e uma no Mato Grosso do Sul.
Medidas oficiais
Diante da gravidade, o governo federal adotou uma série de ações emergenciais:
- Criação da Sala de Situação para monitoramento nacional e articulação entre estados, municípios, vigilâncias sanitárias, saúde, justiça e segurança pública.
- Compra de 4.300 ampolas de etanol farmacêutico para uso imediato no atendimento de casos; previsão de aquisição de mais 150 mil ampolas, equivalentes a cerca de 5 mil tratamentos, para reforçar o estoque do SUS.
- Solicitação ao mercado internacional e à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) de doação de tratamentos com fomepizol (antídoto específico).
- Determinação de notificação imediata de casos suspeitos por parte de todos os profissionais de saúde, aos Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS).
- Abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar a origem do metanol, redes de distribuição e possíveis ramificações do crime além de São Paulo.
O que se sabe até agora sobre os sintomas, diagnóstico e protocolo
- Um caso é considerado suspeito quando, após ingestão de bebida alcoólica, o indivíduo apresenta persistência ou agravamento de sintomas como embriaguez prolongada, desconforto gastrointestinal, alterações visuais (visão turva ou piora visual), tipicamente entre 12 a 24 horas após a ingestão.
- Os sintomas principais relatados incluem náuseas, vômito, dor abdominal, confusão mental e alterações visuais. Em casos graves, há risco de cegueira permanente, falência orgânica ou morte.
- O antídoto mais acessível no momento é o etanol farmacêutico, que compete metabolicamente com o metanol, impedindo ou reduzindo a formação de metabólitos tóxicos. Em paralelo, busca-se o uso de fomepizol como alternativa mais eficaz quando disponível.
Lacunas, desafios e controvérsias
- Origem da adulteração: ainda não se confirmou como e onde exatamente ocorre a introdução do metanol nas bebidas (produção clandestina, falsificação, adulteração de lotes legítimos etc.). As investigações envolvem possíveis redes de crime organizado.
- Mercado informal: vendas de bebidas com origem duvidosa, rotulagem inadequada ou sem nota fiscal são apontadas como fatores de risco para que bebidas adulteradas cheguem ao consumidor.
- Desinformação sobre medidas regulatórias: existe uma narrativa pública equivocada relacionando os casos ao sistema de monitoramento Sicobe, desativado em 2016. O governo esclareceu que não há correlação entre Sicobe e o controle de qualidade ou segurança contra contaminações.
- Limitados recursos antídoto: fomepizol ainda não comprado em quantidade significativa, exigindo apoio internacional; etanol farmacêutico tem estoque inicial, mas demanda pode superar disponibilidade local.
Medidas de prevenção e fiscalização
1. Vigilância reforçada nas redes de saúde, farmácias, estabelecimentos que comercializam bebidas destiladas ou importadas, com fiscalização de lacres, rotulagem, lotes e origem.
2. Campanhas de conscientização públicas para que consumidores fiquem atentos aos sinais de intoxicação após consumo alcoólico, especialmente quando sintomas persistirem além do esperado e envolvam visão turva ou desconforto incomum.
3. Treinamento de profissionais de saúde, para que identifiquem rapidamente casos suspeitos de metanol e iniciem tratamento sem delay, mesmo antes da confirmação laboratorial, para reduzir sequelas graves.
4. Fortalecimento legal e institucional: leis mais rígidas para adulteração de bebidas, punição efetiva aos responsáveis; cooperação entre estados e entes federativos; uso de laboratórios de toxicologia para investigação criminosa; participação federal no financiamento de contramedidas, antídotos e monitoramento.
5. Transparência e comunicação: divulgação regular dos boletins, mapas de risco, orientação à população sobre o que fazer em caso de suspeita; meios de denúncia gratuitos e acessíveis.
Conclusão
O surto de intoxicações por metanol no Brasil revela mais do que um problema emergencial: evidencia fragilidades nos controles sanitários, na cadeia de produção/distribuição, e no nível de alerta da população e dos serviços de saúde. Com casos confirmados, mortes e uma proporção de investigação muito maior que o histórico nacional esperado, as autoridades enfrentam um momento decisivo para intervir de forma enérgica.
Se as medidas anunciadas deixarem de ser implementadas efetivamente, o risco é de que novos casos apareçam, com consequências ainda mais graves.


