Brasil recebe 2,5 mil doses de antídoto e reforça rede de resposta a casos de intoxicação por metanol
O Brasil recebeu nesta quinta-feira (9 de outubro) um lote com 2,5 mil unidades do antídoto fomepizol, medicamento essencial no tratamento de intoxicações por metanol, substância altamente tóxica frequentemente presente em bebidas alcoólicas adulteradas. A aquisição foi feita via Fundo Estratégico da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Das 2,5 mil unidades, 1,5 mil já começam a ser distribuídas imediatamente, com prioridade para estados que registraram casos suspeitos ou confirmação de intoxicação. O restante ficará reservado em estoque estratégico federal para uso emergencial.
Funcionamento do fomepizol
O fomepizol atua inibindo a enzima álcool desidrogenase, impedindo que o metanol no organismo seja convertido em compostos nocivos como formaldeído e ácido fórmico — os principais responsáveis por lesões no sistema nervoso, nos rins e no nervo óptico.
Ele oferece vantagem em relação ao uso de etanol farmacêutico (que já é utilizado no Brasil no tratamento preventivo de intoxicações por metanol) por ter menor efeito colateral e ser mais específico na inibição do metabolismo tóxico.
Critérios e fluxo de distribuição
Gestores estaduais e municipais participaram de reunião técnica — promovida pelo Conass e Conasems — para definir o fluxo de distribuição do antídoto. Ficou estabelecido que o envio federal será proporcional à população de cada estado, com prioridade para aqueles com notificações já registradas.
Após o recebimento pelas secretarias estaduais, cada estado ficará responsável pela distribuição interna às unidades de saúde de referência.
Distribuição inicial por estados (primeira remessa de 1,5 mil unidades)
A Agência Brasil divulgou os seguintes números oficiais para o lote inicial:
Estado / Unidade federativa
Quantidade de unidades
São Paulo
288
Minas Gerais
152
Rio de Janeiro
120
Bahia
104
Paraná
84
Rio Grande do Sul
80
Pernambuco
68
Ceará
64
Pará
60
Santa Catarina
56
Goiás
52
Maranhão
48
Amazonas
32
Espírito Santo
28
Mato Grosso
28
Paraíba
28
Alagoas
24
Piauí
24
Rio Grande do Norte
24
Distrito Federal
20
Mato Grosso do Sul
20
Acre
16
Amapá
16
Rondônia
16
Roraima
16
Sergipe
16
Tocantins
16
O total dessas alocações soma 1.500 unidades para essa fase inicial.
O ministério informou que as unidades restantes (1.000 do lote de 2,5 mil) permanecerão como estoque estratégico federal, para remanejamento conforme surgirem novas demandas ou casos emergenciais.
Estados poderão solicitar remessas adicionais conforme a evolução dos casos e necessidades locais.
Posicionamentos oficiais
A secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Mariângela Simão, afirmou que o etanol farmacêutico já está disponível em todas as unidades federativas e que o fomepizol funcionará como “segunda opção” mais eficaz.
“Apesar de termos notificações em 12 estados, todos os estados do país terão à disposição tanto o etanol quanto o fomepizol.”
A Anvisa, representada por seu presidente Leandro Safatle, destacou o treinamento de cerca de 5 mil agentes de vigilância, policias e funcionários para atuação em casos de intoxicação.
Ele disse:
“Estamos qualificando os servidores da vigilância sanitária para poder proceder diante desse tipo de situação e ajudando no processo de fiscalização e entrega de amostras aos laboratórios para análise.”
O Ministério da Saúde também comunicou que uma chamada pública foi aberta para identificar novos fornecedores internacionais de fomepizol, diante da oferta global limitada do medicamento.
Panorama do surto e contexto epidemiológico
Até 8 de outubro de 2025, o Brasil contabilizou 259 notificações de intoxicação por metanol — sendo 24 casos confirmados e 235 em investigação. Em relação aos óbitos, 5 já foram confirmados em São Paulo, enquanto 11 ainda estão sob investigação em diferentes estados.
O estado de São Paulo concentra a maior parte dos registros: 20 casos confirmados e 181 em investigação. Paraná e Rio Grande do Sul também têm casos confirmados (3 no Paraná e 1 no RS).
O surto é atribuído principalmente à ingestão de bebidas clandestinas adulteradas com metanol, prática ilegal que causa intoxicações graves e consequências irreversíveis como cegueira e falência renal.
Recomendações à população
Evitar o consumo de bebidas alcoólicas sem procedência segura ou registro;
Atentar sinais de intoxicação como náuseas, vômitos, dor abdominal, alterações na visão, confusão mental ou dificuldade respiratória;
Procurar atendimento médico imediato diante de qualquer suspeita, sem aguardar agravamento;
Denunciar pontos de venda suspeitos às vigilâncias sanitárias locais e órgãos competentes.